sexta-feira, 25 de maio de 2012


Esse cheiro de morte, tão forte
bate na sorte.
Benze o que der, engole o que vier
fica à pé.

A cama fria,
chupa o choro quente.
Enquanto não é dia,
seca, segue a mente.

E as pálpebras são viagem,
que do avesso fazem
meu sono em traça,
minha sanidade em fumaça.

segunda-feira, 21 de maio de 2012


Dias atrás, ela secou sua visão matutina com as pernas enfáticas e desnudas pelo vento  que entrava pelas fendas da cortina. Penetrava devagar e trêmulo. Vento úmido.
Seu coração berrava, se via. Se não via, sabia.
Sua pele se rompia com um misto doloroso de sensações engraçadas. Rasgava devagar os papéis, as cenas e os ombros. Desenhava com os pés, uma pergunta.
 Será que podemos fazer alguma coisa pra aceitar que a vida seja tão breve?
Observava em seu corpo, os seus caminhos, suas entradas e seus ninhos, suas saídas e seus fios, suas pontas e pintas. Suas tantas linhas de assombro.
Não ouvia nada. Se deu conta de que só pensava. Queria mesmo resposta?
Talvez só quisesse um poema quebrado
                                                       
                                                          molhado
                                           
                                             borrado

                                                           desgarrado
                                         
                                             adoçado
                                                                    impensado e pintado nas extensas praias vazias onde o mar nunca chegou. Ou e. No lugar escolhido pelo qualquer um, onde suas palavras eram montadas uma a uma, formando paredes de nada.

sexta-feira, 4 de maio de 2012



Depois de sacudir a touca,
de pouca memória,
oca.

Ele aprendeu a menina,
que após absolver sua essência
canina,

Viajou para onde um levanta
e se molha,
enquanto o outro se deita
e pra dentro de si,
olha.

Plantou-se nos braços
e abraços,
assaltou textos
e traços.

Dissolveu a cara de nuvem
marcada
pela pálida e lacônica agonia,
que antes a si mesmo trazia,
que agora, é uma carta
deslocada.

terça-feira, 17 de abril de 2012


 Nossos poemas já respiram na calçada. Acorde os acordes! Quentinhos e pouco confusos.
Deles se ouvem os tec tecs das máquinas de escrever sujinhas, que descoram as cores dos corais botando um som de dia bonito.
Foi o beijo após a dose, é a quase certeza que tenho.
Eu te contei que as letras e os sonhos, as costuras e o vinil, ainda pulsam. Mas você se aproximou tanto que nem dei por mim.
Pensamos juntos que o coração das árvores sentem muito, saltam no vento verde. Nós enxergamos a alma de cada uma, e engolimos com as narinas todo e tudo. Depois disso, nos deitamos na grama pontuda, e forçamos nossos olhos para a luz, sem dormir por estarmos e não estarmos ali, vivos e não vivos.
 Pregado, o céu hoje é abóbora.
 E nossa cara, das cores que não existem.
 E então, nos apaixonados gentilmente pela mãe natureza, pelo resto do que é encarado como vida.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Sem sono, deitei-me em meio ao calor vespertino e rezava sem fé pra ele.
Eu andava sobre sementes verdes, e sentia na pele o formato que se desmanchava com o peso do meu corpo. Passei por um belo, colorido e gigantesco ramalhete, onde pétalas macias caiam sobre minha pele e filtravam minha mente e alma ao mesmo tempo, mas em compassos diferentes.
As sementes terminaram. E meus pés, relaxados e rosados não doíam mais.
Sem que eu percebesse como aconteceu (ou talvez eu não me lembre), meus braços sem ossos foram envoltos por uma grossa camada de flores cintilantes. E eu respirava através do misto de perfumes doces, cítricos e azuis.
Permaneci hipnotizada pela sequência interminável de cores, enquanto minhas pupilas oscilavam de deslumbro.
Sem lágrimas, sem riso. Sintonizada.




terça-feira, 20 de março de 2012


De acordo com o céu,
minha alma vai se encharcar,
e meu coração
 bater mais devagar.

Se o céu não tivesse razão,
de que valeria toda a emoção
de me deitar na chuva
e me afogar?

sábado, 10 de março de 2012


Sinto meu rosto desmanchar-se lentamente, como uma vela. Descobri maneiras de aliviar a dor da alma por instantes, e isso te assusta.
 A vida escorre pelo dedo.
Não fique deprimido, jovem. Talvez isso se pregue em sua alma, antes que você possa ver a luz do dia. E aí, você dará um triste e profundo suspiro quando alguém te disser que tudo ficará bem.
Eu digo pra você o que não quero que passe. E logo não mais poderei dizer. Mas antes, quero meus ossos de volta, pra espremer esse absurdo que me persegue. Quero arrancar sua superfície com os dentes, seja lá do que for feita, e inevitavelmente sangrar junto.
Olhe pra mim com os olhos opacos e distantes, e me aproxime do meu dia. Encha-me o peito de coragem e certeza, pois não há mais o que possa ser feito.