terça-feira, 29 de novembro de 2011

Ana III

Todas as mocinhas encontravam um amor, tinham filhos cabeludinhos e eram felizes.
O que havia com ela?
Feia não era. Só um pouco acabada, talvez.
Resolveu, certa vez, subir ao terraço. E sentiu o vento tocar-lhe a face, sem prestar atenção para qual lado soprava. Sentiu só. Mulher e humana. Viva, enfim.
Com amor sem saber pelo quê, deixou-se ir sem saber pra onde.

Ana II

Assiste  a novelas para notar beleza. Na maioria das vezes, se fascina pelas mulheres. Detesta homens com topetes.
Presenteia-se com ovos de Páscoa, só para saborear chocolates em formatos diferentes. Enfeita a casa no natal, acende todas as luzes e liga a televisão nos programas natalinos, para povoar o ambiente.
Pinta seu corpo com batom caqui todos as terças, e nunca soube o motivo.
Quando sua cadela morreu, a enterrou no quintal e fez uma placa escrita com giz de cera azul marinho: "Aqui jaz minha melhor amiga."
Era à cadela que contava seus medos e curiosidades. Só a deixava sozinha para ir ao mercado.
Sobrevivia muito bem com a pensão de seus pais, tanto, que guardava todo fim de mês o dinheiro que sobrava.
Sabia para que guardava.
Foi tão reprimida na infância, que depois que seus pais morreram, não conseguiu conhecer o mundo.
Só faz o que lhe causa mal. Fuma cada vez mais e morria devagar. Além do mais, quem se importa?
Tem uma doença cardíaca, e não quer morrer dela.
Não foi.

Ana I

Sem amor,
vive sozinha há tanto tempo que não mais espera por ninguém, nem por nada.
Nem mesmo por cartas  ou telefonemas que não fossem contas sem pagar ou enganos.
Seus pais se foram quando tinha doze anos. E hoje com trinta e dois, vive na mesma casa.
Compensando, come todos os chocolates que quer, fuma os cigarros que quer, compra os vinhos que quer.
Tem Morgana, sua cadela! Que só faz ronronar.
Toma banhos prazerosos e demorados algumas vezes por semana. Só sorri vendo filmes ou quando Morgana lambe suas mãos.
- Venha cá, minha menina! Boa menina!
Algo assim.
Se arruma aos sábados e prepara sempre um jantar pra dois. A não ser aos domingos, que é dia da família, e então prepara a mesa toda...
Só pra ela.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ela perguntou e ouviu toda a verdade, sem piscar e muito menos respirar.
Absorveu o coração em cacos, tomou todo o vinho e amanheceu em outro planeta.
Tinha em si duas certezas.
A de não mais voltar pra casa.
E a de ir com quem faz seus pés formigarem.
Pegou  telefone, discou.
-Oi.
-Amo você.
-Sabe que horas são?
-Amo você.
- ...

Vinte minutos depois, ouve chamar a campainha. É ele. Abre a porta:
- Vamos embora daqui.

Ele soltou seus cabelos, beijou-lhe e a levou para onde não haviam só certezas e incertezas. Havia amor.